Muito além de uma visita: o acolhimento

30 de janeiro de 2014

2014.01.30.ACS.Elisangela“Quando comecei a trabalhar como Agente Comunitária de Saúde, eu achei que não iria suportar. Vi muita tristeza, famílias sem motivação, violência familiar e cheguei a me perguntar: é isso que eu quero?” O questionamento foi feito por Elisângela Santos Machado, quando começou na profissão. De lá para cá, cinco anos e sete meses se passaram, e sua visão sobre o ofício mudou muito. “Agora sei que nosso trabalho é muito importante, e vai além, e que, às vezes, aquelas pessoas só querem um abraço acolhedor. E o agente, em algumas situações, é muito mais família do que a própria família”. Nesse contexto, o curso oferecido pelo Projeto Caminhos do Cuidado de capacitação em saúde mental, crack, álcool e drogas para ACSs e ATENFs (Auxiliares e Técnicos de Enfermagem) foi de grande importância para Elisângela.

“Temos muitos problemas por aqui e sempre pedíamos ao nosso Médico de Família que tivéssemos alguma capacitação. Nossa enfermeira também nos motivou muito”. A ACS diz que gostou muito do curso. “O curso ajudou a trocarmos experiências e como chegar até o paciente. Se o usuário faz uso abusivo é preciso abordar com calma. Preciso ter calma, mas também não posso demorar muito”.

Elisângela tem 37 anos é casada há 20 anos e tem dois filhos. Trabalha como ACS no bairro do Arquipélago, em Porto Alegre (RS) e afirma que ama o que faz. Ela conta que a vontade de ajudar as pessoas a terem uma melhor qualidade de vida, a levou a trabalhar na área da saúde. “Vou à comunidade e forneço medicação assistida aos pacientes de tuberculose”. Mas além desses, atende os diabéticos e os dependentes químicos, muitos deles portadores do vírus HIV.

No cotidiano do trato com as pessoas que fazem o uso abusivo de drogas, algumas famílias atrapalham o tratamento, relata Elisângela, entretanto, outras ajudam no processo de acolhimento do usuário. “Primeiro, nós levamos o caso até a Distrital para discussão com psiquiatra e psicólogo, e depois é visto como se pode ajudar a família. Em outro momento é decidido para onde o usuário será encaminhado para tratamento. Aí é feita a marcação de consulta, se o usuário aceitar”.

Ela conta que na região a droga mais usada é o crack. “Alguns fazem uso da droga abertamente, mas quando chegamos na comunidade, e isso é muito comum, eles param de usar. O agente de saúde é bastante respeitado.” relata. A faixa etária em que o problema se instala é cada vez menor. Segundo ela, há crianças que a partir de 12 anos já usam entorpecentes. “As pessoas migram muito para essa região, principalmente a população de rua. Já levamos alguns casos que ultrapassam a saúde para outras instâncias e no caso de menores de idade, o Conselho Tutelar é chamado para auxiliar”.

“É muito difícil convencer um usuário que a droga faz mal”. Ela conta a experiência bem sucedida, do tratamento de um jovem tuberculoso, de 18 anos, que fazia uso de cola de sapateiro. “Ele diminuiu bastante o consumo da droga e conseguiu se curar da tuberculose. Lembro que nos dias de visita domiciliar, ele já me esperava com um copo de água na mão para tomar o remédio contra a tuberculose”.

Elisângela destaca que o trabalho do ACS envolve dedicação e solidariedade. “Tudo que a gente faz pelo ser humano tem que se fazer por amor, sem olhar a quem, seja rico ou pobre. O agente é a ponte, o elo da comunidade com a equipe”.

Em família cultiva hábitos simples

A força que carrega com ela pode ter alguma influência do zodíaco, brinca Elisângela, que se considera valente como toda sagitariana. “Nunca desisti porque tenho gênio forte como todo sagitariano”. Nas horas livres gosta de estar com o marido e com os dois filhos. Para cuidar do corpo faz caminhada, mas lembra que não seria necessário porque pedala de 20 a 30 quilômetros por dia trabalhando. “Pela manhã vou até as áreas mais distantes e a à tarde sigo para os locais mais perto de casa”.

Elisângela tem um gosto musical eclético, ela ouve música sertaneja, MPB e Pop, só não gosta mesmo é de funk. Adora filmes de ficção científica, principalmente os que alertam para os descuidos e maus tratos à natureza.

Em frente à TV, dá preferência ao noticiário. “Meu marido brinca dizendo que só tem notícia ruim”. Sem nunca perder o otimismo, a gaúcha Elisângela resume o que deseja para este ano: “primeiro, eu quero ter muita saúde, o resto a gente corre atrás”.